VIII Regata Bahia Azul

O convite

Estava esperando a Regata Bahia Azul desde a Regata João das Bottas. Jorge, saveirista do “Sombra da Lua” (Saveiro de “Popa Torada”), já tinha me avisado e era uma regata que os Saveiros iam participar. Só que dessa vez não era uma disputa somente de Saveiros, vários barcos de várias categorias iriam participar. Toda sexta-feira eu estava no porto perto do Mercado Modelo para saber o dia exato da regata, sabia que ia ser em um sábado, mas não sabia o dia exato.

E foi em uma quinta-feira que recebi um telefonema de um amigo de longas datas, Marcelo, me convidando para participar em uma escuna a vela. Pra falar a verdade esse amigo é meio louco, sinceramente dizendo, é louco total, “com direito a carteirinha e tudo”. Lembro de Itacaré, em 1985, aquelas ondas perfeitas, quebrando para os dois lados, e o sujeito desaparecendo dentro de gigantes “tubos”, imagens que nunca saíram da minha memória. Sempre apaixonado por aventuras levou do exército para a área comercial o rapel através da empresa Pangéia. “Vê se eu vou ficar” descendo de prédio pendurado em uma corda “igual a pendulo de relógio”. Quando eu falo que ele é louco ninguém acredita, mas como ele sempre diz, “tudo com segurança”. Ficamos de nos encontrar as 9:30 no Saveiro Clube da Bahia, na Ribeira.

A Raposa do Mar

Desta vez não queria chegar atrasado, era às 8:50 e eu já estava no atracadouro do Saveiro Clube da Bahia. E como em toda a regata levando água mineral, feijão tropeiro, biscoito, filme para a máquina fotográfica e pilha para a digital. Chegando a escuna encontrei o marinheiro Lázaro (o responsável pela escuna), Davi (o comandante) e Fabrício (o ajudante), os passageiros chegaram depois, eu (Ricardo Tavares), Marcelo, Cunha e Alexandre. Estava um “corre-corre” na escuna, Davi trabalhava nos último preparativos para a navegação a vela, batia daqui, apertava de lá e os moitões estavam seguros as retrancas.

Foto 1: o moitão. Foto 2: acima a carangueija e abaixo a retranca.

“Agora a Raposa do Mar está pronta para velejar” avisou o comandante Davi. A “Raposa do Mar” é uma escuna pequena e nem por isso deixa de ser bela, para mim, a escuna mais bonita que já vi. A “Raposa do Mar” é uma escuna com dois mastros, com gurupés (pau de giba) que faz uma cruz com a plataforma e impulsionada por 4 velas: a genoa, a buja, a mestra (os marinhos da escuna chamavam de mezena menor), a mezena (as velas sentido proa-popa).


Foto 1: As velas buja (à esquerda) e a genoa (à direita) arreadas no gurupés (pau de giba). Foto 2: Davi (camisa branca) e Fabrício lendo as regras da regata.

Foto 1: o motor (não utilizado na regata). Foto 2: a bússola da “Raposa do Mar”.

A Ribeira

As 10:25 partimos do Saveiro Clube da Bahia a motor exatamente na Enseada dos Tainheiros, enquanto a escuna navegava apreciávamos esta linda enseada, ao longe, a boreste (bordo direito) da embarcação, estava a ponte de São João onde até os dias atuais passa o trem de ferro na linha Calçada-São Tomé de Paripe. A bombordo (bordo esquerdo) da embarcação, o bairro da Ribeira onde fica a Sorveteria da Ribeira, a Igreja Nossa Senhora da Penha, o Clube de Regatas Itapagipe e muitas marinas. Fomos saindo da Enseada dos Tainheiros em perpendicular ao trajeto proposto (Forte São Marcelo), pois teríamos de contornar uma bóia cega (depois falarei sobre esta bóia) na saída da enseada logo que, em linha reta ao Forte São Marcelo há locais de pouca profundidade.

Foto 1: Saveiro Clube da Bahia. Foto 2: Ponte do São João.

Foto 1: Vista da Enseada dos Tainheiros. Foto 2: Bairro da Ribeira vista do Baia de Todos os Santos.

Por volta das 10:50 passamos a bóia encarnada e, ai sim, seguimos para o Forte São Marcelo. Neste meio tempo Alexandre contou uma história (meio cabeluda) de uma capotagem em um pequeno veleiro “só vi as barbatanas (de golfinho) passarem perto de mim...quase morri”, disse Alexandre, deste então, passou a um certo pavor de mar.

Já era 11:12 quando passamos pela ponta de Humaitá e chegamos ao Forte São Marcelo por volta das 11:45.

Foto 1: Panorâmica, barcos indo para a regada, ao fundo a rua da “Pedra Furada”.

Foto 2: Ponta de Humaitá.

A largada

Jogamos a âncora, descemos o inflável (barco) da escuna e fomos fazer a inscrição, eu, Davi, Lázaro e Fabrício, aportamos no Centro Náutico da Bahia e aproveitei este tempo para visitar o Saveiro “Sombra da Lua”, já no ancoradouro do Centro Náutico fui em direção ao “Sombra da Lua” que ancora perto do Mercado Modelo, encontrei com o Mestre Bartô, com Jorge e Carlos (vencedores da regata João das Bottas/2005). Voltei ao Centro Náutico para cumprir uma velha promessa, entregar as fotos da Regata João das Bottas a Regi (mestre do Saveiro “Cruzeiro da Vitória”). Promessa cumprida, voltamos ao “Raposa do Mar” no inflável.

Foto 1: A “Raposa do Mar” foto tirada do inflável.

Foto 2: Saveiros ancorados no Centro Náutico da Bahia.

Foto 1: Saveiro “É da Vida”, ao fundo o Elevador Lacerda na Cidade Baixa.

Foto 2: Saveiro “Sombra da Lua” e atrás do concreto o Saveiro “Vendaval II”.

As 12:37 subimos no convés da escuna e as 12:48 levantamos a âncora e, aos poucos, as velas. Não pude deixar de notar a beleza dos barcos, como o Galileo (monocasco) e o Odara (catamarã), dois barcos construídos para competições. Os Saveiros de vela de içar e de pena, e a escuna “Raposa do Mar” (única escuna a participar da regata, ou seja, concorremos com nós mesmos). E até os pequenos veleiros modernos saindo para a largada.

Foto 1: Saveiro “Sombra da Lua”, ao fundo o Forte São Marcelo.

Foto 2: O catamarã “Odara”.

Saímos do quebra mar usando o motor e as velas, procuramos a melhor posição para a largada, enquanto isso eu fotografava alguns barcos.

Foto 1: Saveiro “Sombra da Lua” seqüência da foto anterior .

Foto 2: Saveiro “É da Vida”.

 

Foto 1: Vários Saveiros saindo para a largada.

Foto 2: Saveiros ancorados esperando a hora da largada.

Às 13:25 subiu a bandeira amarela, às 13:26 subiu a bandeira papa, às 13:29 desceu a bandeira papa, às 13:30 desceu a bandeira amarela e foi ouvido um sinal sonoro (rojão) indicando o início da regata. Desligamos o motor e cruzamos a linha de largada às 13:32. Esta era uma linha imaginária entre um pequeno barco a motor e a bóia do quebra mar.

Foto 1: O “Nó Cego” antes da partida.

Foto 2: O “Maroto” trimarã de pequeno porte.

 

“Aqui, menino não entra”

Já no início da regata suspeitei que escolhemos a estratégia errada, melhor dizendo, tínhamos que estudar antes o que fazer e não deixar para em cima da hora ou deixar a estratégia na mão de uma só pessoa. Mas como na nossa categoria éramos os únicos, não tinha problema chegar mais à frente ou mais atrás (mas não tão atrás!). Escolhemos ir mais pela direita (mais para o meio da Baia de Todos os Santos). Os Saveiros (com os mestres mais experientes no comando) iam contornando a terra (bem próximo à cidade de Salvador, local para mim com um vento mais forte e um ângulo melhor em relação ao vento) por isso deveríamos ficar perto dos Saveiros. Mas fomos, aos poucos, para a primeira bóia que se situava em frente à praia do Porto da Barra, a mesma bóia encarnada da entrada da Baia de Todos os Santos.

Pegamos o vento de través de bombordo (perpendicular (90o) ao barco) e 10 horas e 30 minutos (45o em relação à proa (bombordo)). Os Saveiros tinha um ângulo melhor, deveriam ter pegado um vento de través de bombordo e/ou 7 horas e 30 minutos (135o em relação à proa (bombordo)). Ou seja, escolhemos um ângulo mais fechado em relação ao vento. Tento explicar minha tese na figura abaixo.

Aproveitei o momento após a largada para fotografar alguns barcos em movimento, mas essa hora é um “deus nos acuda” e se não tiver uma boa máquina pouco se faz, notei que essa regata era um pouco diferente da Regata João das Bottas. Quando estava no Saveiro “Cruzeiro da Vitória” na Regata João das Bottas alguns passageiros chegaram atrasados e cometeram um grande pecado (segundo os tripulantes do saveiro) trouxeram uma mulher a bordo, todos praguejaram. Realmente, em um saveiro há pouca privacidade, não existe local para se fazer as necessidades e se você as fizer tem que ser na frente de todos. Mas em um veleiro moderno tem banheiro e privacidade, notei que na VIII Regata Bahia Azul a quantidade de mulheres nos barcos eram em uma porcentagem considerável. E para a minha surpresa a tripulação do Veleiro “Bombordo” (era o que deu para ler) eram somente de meninas, todos com blusas padronizadas (blusas rosas com um logotipo), naquele barco devia está escrito em algum lugar “aqui, menino não entra”.

Foto 1: As meninas do veleiro Bombordo.

Foto 2: Um hobby cat a todo gás.

Primeira bóia

Já era 13:46 e ainda estávamos em frente ao Segundo Distrito Naval, as 13:55 o vento ficou mais forte, sabemos que a escuna é uma embarcação muito pesada, atrás de nós somente dois barcos, todos os saveiros estavam na nossa frente. Às 14:27 estávamos na frente do Yate Clube da Bahia.

Foto 1: 3 saveiros que já tinham passado pela primeira bóia.

Foto 2: Da esquerda para a direita, O comandante Davi, Cunha, Marcelo (fariseu) Alexandre, Lázaro (com o salva-vida).

Foto 1: Fabrício comandando a genoa.

Foto 2: Detalhe da “Raposa do Mar”, Santo Antônio.

Passamos a primeira bóia às 14:49. Dava para ver a praia do Porto da Barra (como sempre lotada) e o Farol da Barra. Depois de passarmos a primeira bóia pegamos o vento apopado e a “Raposa do Mar” nos concedeu uma linda manobra, a “asa de pombo” (a vela mestra para um lado e a mezena para o outro lado).

 

Foto 1: A primeira bóia em frente ao Farol da Barra.

Foto 2: A “Raposa do Mar” e uma linda “asa de pombo”.

Nem tudo é azul

Rumamos para a Ilha de Itaparica, para a bóia final em frente à estação de desmagnetização. Às 15:14 demos passagem para o navio cargueiro “Montana Star” (embarcação de capacidade de manobra restrita) como manda o RIPEAM (Regulamento Internacional Para Evitar Abalroamento no Mar). Segundo o RIPEAM as prioridades são:

1)      Embarcação sem governo.

2)      Embarcação de capacidade de manobra restrita.

3)      Embarcação engajada na pesca.

4)      Embarcação a vela.

5)      Embarcação a propulsão mecânica.

Foto 1: Dando passagem ao navio cargueiro “Montana Star”.

Foto 2: Detalhe da pintura na buja da “Raposa do Mar”.

Depois que passamos o navio cargueiro encontramos alguns golfinhos, não conseguimos fotografar nenhum deles, logo que, eles ficavam pouco tempo na superfície a uma certa distância. E mais um pouco a frente um fato triste, encontramos ao longe várias caixas de cerveja flutuando. Esse ato inconsciente, totalmente contrário da proposta da Regata Bahia Azul. O Bahia Azul é um programa que representa o maior conjunto de obras e ações na área de saneamento e beneficia as cidades situadas no entorno da Baía de Todos os Santos.

Foto 1: Ângulo novo para uma foto. Foto 2: Eu e minha paixão, o Saveiro.

 A chegada

Às 16:55 já estávamos na Ponta de Itaparica. A “Raposa do Mar” na linha de “primeira bóia” - chegada cumpriu sua função muito bem, com vento apopado conseguiu passar dois saveiros e vários veleiros, a escuna a vela funciona melhor com um vento mais forte e nesta virada de bóia o vento ficou mais forte, não fizemos feio.

Passamos na linha de chegada às 16:58 (uma linha imaginária entre um barco a motor e uma bóia). Foi uma festa, parabenizamos o comandante Davi, relembramos alguns momentos da regata. Só faltava uma coisa, tirar fotos da “Raposa do Mar” em ação. Descemos o bote, colocamos o motor elétrico e uma bateria e fomos (eu e Marcelo) tirar algumas fotos da escuna. Fotos comparadas a uma pintura, linda a escuna em movimento com as velas.

Foto: Escuna “Raposa do Mar” em ação.

O trio elétrico

Voltamos para a escuna e deixamos a máquina fotográfica e desembarcamos, eu, Marcelo, Cunha e Alexandre em Itaparica, visitamos uma bica construída em 1827, e nela uma inscrição: “Fonte da Bica, Eh! água fina, Faz “véia” virar menina”. Na volta, no ancoradouro, encontramos um pequeno trio elétrico de 40 cm de altura, mas com o som de um trio de verdade. “Quando eu falo que tudo acaba em festa ninguém acredita”.

Foto 1: A fonte da Bica. Foto 2: Eu atrás do trio.

 “Onde fui amarrar o meu jumento?”

Tinha um jantar oferecido aos participantes da regata e junto com a divulgação dos resultados, mas quem não ia gostar eram as nossas esposas, conversamos e resolvemos voltar (pra que?), não estava chovendo, mas encontramos ondas que lavavam o convés. Ligamos o motor da escuna e recolhemos a vela e logo na saída de Itaparica percebi que a travessia seria complicada, as ondas eram grandes e a “Raposa do Mar” parecia um “João teimoso” no meio da Baia de Todos os Santos. A embarcação oscilava verticalmente no sentido proa-popa e começou a encontrar ondas de frente, foi neste momento que coloquei o meu colete salva-vidas (não por medo, mas “seguro morreu de velho”). Depois que nos deslocamos mais para o meio da baia piorou mais ainda a situação, o marinheiro Lázaro colocou o seu colete e entrou no tijupá (que marinheiro é esse?). Pensei que o pior já tinha passado, me enganei, a escuna passou a furar as ondas, quem estava no convés tomou um banho de água salgada. Perguntei a Davi se ele já tinha visto mar pior? “Quando vim de Recife tínhamos que subir nas ondas, pensei que o barco ia virar pela proa” afirmou Davi. Mesmo assim pensei comigo mesmo “Meu amigo! A coisa foi feia”, “Onde fui amarrar o meu jumento?”. Lembrei de um episódio que acontecera com o Clipper “Essex” (navio que afundou depois de ser atacado por um cachalote, inspirando Herman Melville a escrever Moby Dick), o “Essex” encontrou uma tempestade tão violenta que o fez adernar quase que 90o (fonte: No Coração do Mar, Nathaniel Philbrick, pág. 69). Mas depois de uma hora de mar bravio as ondas acalmaram-se e chegamos na entrada da Enseada dos Tainheiros e para o meu espanto aquela bóia encarnada mostrando o local raso da enseada era cega (bóia que não tem sinalização luminosa), mas como temos um comandante experiente não teríamos problema, nesta situação valeu o conhecimento do “terreno”. E os que vem pela primeira vez? Aconselho a vir de dia. Chegamos sãos e salvos, nesta última etapa tirei poucas fotos ou não deu para anotar os horários.

Foto 1: Lázaro dentro do tijupá. Foto 2: Na chegada a Baia da Ribeira.

 Um dia perfeito

Que dia! Valeu mesmo! Saímos do Saveiro Clube e Marcelo me deu uma carona até o Iguatemi, já estava planejando revelar as fotos da máquina analógica (eu levei uma máquina digital e uma analógica, Marcelo levou uma máquina digital). “Hoje foi um dia perfeito”. Até a próxima, se Deus quiser!

Foto: Final de regata, imagens para se guardar.

Créditos texto: Ricardo Tavares.

Créditos fotos: Ricardo Tavares e Marcelo Carvalho.